Mente livre atrás das Grades

Publicado: 2 de setembro de 2013 em Uncategorized
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Trabalho voluntário cria plataforma de expressão para detentos em tratamento de dependência química do Presídio Central

O que está preso é o corpo, não a mente. As palavras que abrem este texto formariam nada mais do que uma frase de efeito, não fosse a dedicação de uma jovem de 30 anos, advogada, jornalista, mestre em Direito e voluntária no Presídio Central de Porto Alegre.

Movida pela convicção de que não existe direito se não houver prática, Carmela Grüne visita semanalmente o presídio, há dois anos, para desenvolver um projeto que garanta aos detentos liberdade, pelo menos, para se expressar.

Por que as pessoas presas precisam ser infelizes? Por que as memórias desse tempo no cárcere precisam ser apagadas?” – questiona.

Criada em 2011, com apoio do Ministério Público e da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), para atender presidiários em tratamento de dependência química, a galeria batizada com o nome de “Luz no cárcere” era o espaço que Carmela buscava desde 2010 para poder agir no Presídio Central. Como era preciso reorganizar a forma como os presos usavam o tempo, Carmela achou uma brecha para colocar cultura e cidadania na agenda dos detentos.
Os encontros são registrados em fotos e vídeos, captados e editados por Carmela, com ajuda do realizador audiovisual João Antônio Teixeira Junior, 24 anos, também voluntário. O material é postado em uma página no Facebook que leva o nome do projeto: Direito no Cárcere. Tudo o que é produzido para ser publicado na rede é discutido, pensado e até ensaiado.
Apesar do apoio da sociedade, com 30 mil visualizações mensais à pagina do projeto, presidiários mostrando o rosto na internet desafiam os padrões do sistema prisional, tanto que a direção tentou proibir, mas os próprios detentos escreveram uma carta reivindicando o direito de ter direito sobre o uso da própria imagem.
A consciência sobre questões desse tipo é tema frequente de discussão nas visitas de Carmela, que montou uma biblioteca com livros jurídicos para que os apenados possam se aprofundar no assunto. Outras intervenções da jovem no ambiente são bem mais sutis. Um espelho foi colocado na sala de convivências da galeria E-1 – onde estão 61 presos – para que eles possam se ver. Fotos da turma estão fixadas em um painel para gerar mapas de memória. As grades da sala foram cobertas com cortinas brancas. O verde-escuro até a metade das paredes deu lugar ao branco, com a participação dos presos na pintura. Um mutirão levou grafiteiros à galeria para colorir o muro do pátio com arte. Uma vez por mês, uma banda faz show na E-1.

Retorno para a rua melhor do que antes

Talvez o resultado mais simbólico dessa ressignificação do espaço prisional seja percebido na convivência entre os detentos. Muitos eram traficantes que vendiam droga para sustentar o vício. Alguns mataram, outros roubaram, há quem tenha matado e roubado por causa da droga. Vieram de um período obscuro em que“eliminar” o outro era questão de sobrevivência. Hoje, enaltecem a solidariedade. Fazem questão de mostrar como cada um ajuda o outro com os conhecimentos que têm, seja uma receita de bolo ou assessoramento jurídico. É isso que os faz agora melhores do que antes. É isso que lhes dá esperança de voltar para a rua melhor do que saíram, contrariando o senso comum.

tais.seibt@zerohora.com.br

TAÍS SEIBT

 

 

 

Luta contra a droga

 

Como é o tratamento nas cadeias

 

 

– A Susepe dispõe de 18 vagas no Hospital Vila Nova para o tratamento de desintoxicação, onde o dependente fica 21 dias internado.

 

– As vagas são distribuídas entre apenados do Presídio Central, da Penitenciária Feminina de Guaíba, da Penitenciária Modulada de Osório e da Penitenciária Modulada de Charqueadas.

 

– O Central é o único presídio que tem uma galeria totalmente livre de drogas para receber os apenados após a desintoxicação, mas há acompanhamento médico e de assistente social para dar continuidade ao tratamento em todas as cadeias.

 

– O tratamento não é compulsório, depende do interesse do dependente em abandonar o vício. A Susepe não dispõe de estatísticas quanto ao índice de dependência química nas cadeias.

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