“O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder”

Publicado: 23 de novembro de 2013 em Uncategorized
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Por Cleidi Pereira | cleidi.pereira@zerohora.com.br

Amigo de Lula há 30 anos, Frei Betto foi responsável por sugerir ao então presidente que indicasse para o Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, ministro que se tornaria um algoz do PT

(Cleidi Pereira/Agência RBS)

O contraste do olhar sereno com o semblante sério resume a trajetória de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto: mesmo diante de injustiças e dificuldades, ele jamais perdeu a fé e a esperança. Foi assim nos quatro anos em que esteve preso durante o regime militar, por apoiar a luta armada contra a ditadura, e nos cinco anos seguintes em que morou na periferia de Vitória, no Espírito Santo, quando decidiu ficar no Brasil.
Aos 69 anos, o escritor mineiro, religioso dominicano e assessor de movimentos sociais é hoje reconhecido mundialmente por sua luta pela justiça social e pelos direitos humanos. Em janeiro, recebeu da Unesco o Prêmio José Martí, por seu trabalho marcado pela “oposição a todas as formas de discriminação, injustiça e exclusão”.
Frei Betto recebeu ZH no Convento Santo Alberto Magno, no arborizado bairro Perdizes, zona oeste da capital paulista, onde reside há mais de 30 anos. Ele fez dois pedidos: que a entrevista não fosse registrada em vídeo – costuma dizer que o “olho canibal” das câmeras o agride – e que a repórter, se possível, se adiantasse. A conversa começou com meia hora de antecedência para que o homem que diz não ter rotina pudesse cumprir rigorosamente a agenda apertada do dia.
Autor de 57 livros que se define como escritor compulsivo, Frei Betto tem um perfil que provoca dúvidas. Há quem diga que ele é padre e filiado a partido político, mas não é e nunca foi nem uma coisa nem outra. Quando olha para o passado, o frade diz que o cárcere, na verdade, o libertou, pois serviu como um “grande retiro espiritual e literário”. Participou da criação do PT e, embora classifique os governos Lula e Dilma como “os melhores da história republicana”, não poupa críticas ao partido, que diz ter sido picado pela mosca azul.
Na entrevista, ele conta como nasceu a amizade de mais de 30 anos com Lula, analisa os 10 anos de governo do PT, conta como conheceu e indicou Joaquim Barbosa ao Supremo Tribunal Federal (STF) e fala sobre o pontificado do Papa Francisco.

O senhor já escreveu que a “arte de tecer letras” é a sua forma de administrar a loucura. O que tanto perturba um autor de 57 livros?

Somos seres múltiplos interiormente. A literatura tem um caráter terapêutico. O Hélio Pellegrino, psicanalista, escritor e muito meu amigo, diz que eu não ter enlouquecido nos quatro anos de prisão (foi preso pela ditadura militar, entre 1969 e 1973), nem feito terapia se deve ao fato de ter trabalhado minha dor através da literatura. A literatura é o meu refúgio, a maneira de administrar os anjos e demônios que me habitam. Por isso que sou um escritor compulsivo, não posso ficar 48 horas sem escrever que começo a me sentir mal.

Quais são as suas técnicas?

Tenho dois processos. O mais importante é que reservo 120 dias do ano só para escrever. Já sei quais são os dias de 2014 que vou me afastar de tudo. No máximo 10 e no mínimo cinco dias, ao longo do ano, que, somados, dão 120. É uma prática que vem desde 1987. Segundo fator é que tenho facilidade para escrever graças a minha experiência no jornalismo. Escrevo meus artigos para jornais e revistas no aeroporto, na sala de espera de dentista. Sou disciplinado para escrever.

Como descobriu a vocação religiosa?

Através da JEC, a Juventude Estudantil Católica, um movimento da Ação Católica, nos anos 1960. Os frades dominicanos de Belo Horizonte eram assessores da JEC. Muitos militantes da JEC entraram nos dominicanos. Nem todos permaneceram, mas vários ficaram empolgados com o testemunho deles. E essa inquietação me veio desde os 16 anos. Entrei na JEC com 13. Isso eu conto no livro O Que a Vida Me Ensinou. Aos 20 anos, estava na faculdade de Jornalismo quando decidi interrompê-la para fazer uma experiência nos dominicanos, convencido de que não era minha vocação, mas não queria chegar aos 40 anos pensando que não tive coragem de fazer a experiência. Entrei e hoje já são 48 anos de vida religiosa. Me sinto muito feliz.

Em um dos seus livros, o senhor conta que seu pai dizia que “filho seu podia ser tudo, menos vestir saia”. Houve resistência da família?

Tinha duplo sentido essa advertência. Meu pai era um anticlerical militante, e na minha casa era proibido entrar padre, embora ele respeitasse a prática cristã da minha mãe. Minha mãe era uma mulher de visão cristã muito avançada, aberta, mas ele tinha total ojeriza a igreja e a padre. Depois, ele mudou, a ponto de me apoiar no fim da vida, principalmente após minha prisão.

Vocês chegaram a romper?

Sim. Ele foi a última pessoa que soube que eu iria entrar nos dominicanos. Quando comuniquei isso, ele me disse “nunca mais fale comigo”. E, simbolicamente, ele me enterrou, porque chorou de uma maneira que nunca ninguém jamais o tinha visto chorar. Mas um ano e pouco depois voltamos a nos falar e, aos poucos, ele foi vendo que os dominicanos, o segmento da Igreja ao qual estou ligado, a Teologia da Libertação, era muito diferente daquilo que ele havia experimentado na infância e na juventude.

Como o senhor lida com o celibato e o voto de castidade?

É tranquilo, porque quando você faz o voto, faz baseado em dois princípios. Primeiro, é um sentimento de que tenho vocação para isso, escolhi isso. Segundo, você faz uma renúncia, mas uma renúncia que tem muitas compensações. Por exemplo: nunca tive saudade do casamento que não tive, dos filhos que não tive. O celibato me dá muita liberdade. Posso ter amizades sem suscitar ciúme, apropriação. Vejo amigos casados que não podem ter essa diversidade de amizades que tenho e essa liberdade.

Quais são os seus três votos?

Pobreza, castidade e obediência, que eu gostaria que fossem mudados os nomes. O voto de pobreza deveria se chamar voto de compromisso com a justiça, porque é um cinismo falar que o religioso é pobre, ele vive numa estrutura que tem tudo, que o mantém. Ele não precisa ter as preocupações dos comuns mortais. Voto de castidade eu chamaria de voto de gratuidade no amor, quer dizer, você renuncia a um pacto quase de apropriação, que é o casamento, para ter gratuidade no amor. E o voto de obediência, que é uma palavra execrável, parece uma relação senhor/escravo, eu preferiria chamar de voto de fidelidade comunitária, que é um termo mais bíblico.

O senhor já se apaixonou ou pensou em se casar?

Ao longo da vida, já me apaixonei algumas vezes. Foi uma experiência muito rica, mas nunca blefei. Da primeira vez, eu coloquei para os meus superiores – ainda não tinha feito os votos – e eles disseram “namora e vê o que você quer”. E eu cheguei à conclusão de que o meu lugar era aqui e não casar com aquela moça.

O senhor foi vizinho da presidente Dilma Rousseff na infância, em Belo Horizonte. Vocês eram amigos?

A Dilma, que a gente chamava de Dilminha, porque a mãe dela é Dilma também, vivia na mesma rua, a Major Lopes. Ela é mais nova do que eu e era amiga da minha irmã Teresa – somos oito irmãos e eu sou o segundo. Então, cruzei com a Dilma, mas não cheguei a ser amigo dela. Brinco com a Dilma que nós somos tri vizinhos, porque mais tarde fomos vizinhos aqui em São Paulo, no presídio Tiradentes. Ela no pavilhão feminino e eu no masculino. E depois, pela terceira vez, fomos vizinhos no Palácio do Planalto. Ela ministra de Minas e Energia e eu assessor do presidente.

Como foi o reencontro no presídio?

No presídio é que fiquei amigo de Dilma, porque o diretor permitia que eu passasse alguns domingos, com os outros dois frades que estavam comigo, o Ivo e o Fernando, para o pavilhão feminino para fazer uma celebração dominical. Então, a gente levava recado dos homens para as mulheres, das mulheres para os homens. E algumas noites fazíamos uma fantástica serenata, porque o que se falava de um lado da parede se escutava muito bem do outro. Além do que essa parede, que era fronteira entre os dois pavilhões, tinha buracos disfarçados pelos quais passávamos mensagens.

O senhor foi preso duas vezes, passou por oito presídios, ficou um mês em uma solitária, foi torturado. Que estigmas e lições ficaram?

A prisão foi um grande retiro espiritual e literário para mim. Estudei, li, rezei, meditei. Sou uma pessoa antes e outra depois da prisão. Ela me deu uma enorme liberdade, por mais paradoxal que essa afirmação pareça. Aprendi a ver a vida como quem chupa manga deixando o caldo escorrer pelos braços. E me fez perder o medo. Eu tinha tanta certeza que não sairia com vida que me surpreendi de ter passado quatro anos, o que me fez continuar no Brasil. Fui morar numa favela em Vitória, onde fiquei cinco anos. Depois voltei para São Paulo. Aprendi também a não odiar, não por virtude, mas por comodismo. O ódio destrói primeiro quem odeia, não quem é odiado. Não adianta nada ter raiva de torturadores e generais. Vai corroer o meu coração e não incomodá-los. Daí a clareza de que a minha luta é contra um sistema e não contra essa ou aquela pessoa.

Foi um erro da esquerda apelar para as armas?

Não acho que foi um erro. A ditadura suprimiu todos os meios democráticos e pacíficos. O nosso erro foi a pressa. Devíamos ter feito um trabalho político muito mais profundo, sem a convicção de que empunhar as armas iria criar um fato político. Não criou. A ditadura conseguiu, ao nos qualificar de terroristas, nos distanciar da opinião pública. Creio que cometemos vários erros. Possivelmente, o maior deles foi não ter um pouco mais de paciência histórica para fazer um trabalho de formação política dos militantes. Porém, na nossa consciência, nós do grupo de frades que apoiou o Marighella (guerrilheiro Carlos Marighella), era uma ação legítima, embora não legal, e respaldada pela doutrina tradicional da Igreja. Hoje, os meus torturadores e carcereiros têm vergonha do que fizeram, e eu tenho orgulho do que fiz.

Como nasceu a amizade com Lula?

Durante 22 anos, fui responsável pela Pastoral Operária do ABC, na época do Dom Cláudio Hummes, em 1979. E só no ano seguinte, em um encontro sindical, em Minas Gerais, conheci o Lula, e aí nasceu a amizade.

Nestes mais de 30 anos de convivência com o ex-presidente, algum episódio o marcou?

O que mais me marcou foi ele me convidar para ser assessor especial em algo que tem a ver com a minha trajetória pastoral, que é cuidar dos mais pobres entre os pobres, que são os famintos. Mas, depois de dois anos de governo, cheguei à conclusão de que o serviço público não é a minha vocação. E também porque fui trabalhar no Fome Zero, que era um programa de caráter emancipatório, e considero o Bolsa Família bom, mas de caráter compensatório. O Fome Zero era melhor. Discordei e aí resolvi pegar o meu boné e voltar para casa. Mas ficou a amizade, tenho apreço, admiração e ele contará sempre com meu voto.

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