Capital tem um roubo a cada 25 minutos. E aí Michels?

Publicado: 12 de janeiro de 2014 em Uncategorized
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ZH analisou as 58 ocorrências de assaltos na Capital registradas em apenas um dia da semana

O Blog do Cavalcanti em Recife

RBS/Maurício Tonetto

Não importa o horário, o bairro ou a classe social: a cada 25 minutos, uma pessoa é assaltada em Porto Alegre. Zero Hora teve acesso a todas as ocorrências policiais de roubo das 24 horas do dia 3 de janeiro e constatou, nas 58 análises, que os principais alvos dos criminosos são os telefones celulares e os automóveis, fáceis de vender no mercado irregular. Criminosos costumam estudar a rotina das pessoas e dos locais e aproveitam-se da distração para atacar, principalmente entre 6h e 9h, e à noite, das 20h às 22h.

Mesmo que não sejam considerados crimes graves pela Polícia Civil e pela Brigada Militar, os roubos afetam as vítimas, que sentem medo de sair à rua e realizar tarefas cotidianas, como sacar dinheiro em uma agência bancária ou esperar um ônibus na parada. Em quatro casos traumáticos destacados para esta reportagem, uma dona de casa quase teve o filho de três anos levado com o próprio carro, uma aposentada presenciou o marido sendo baleado no estacionamento de uma revenda de carros, uma funcionária de um posto de combustíveis pediu demissão depois de ver um taxista ser assassinado e o dono de uma pizzaria ouviu o criminoso “tirar onda” após limpar o seu caixa. Em todos os casos, há reclamação de falta de policiamento. Até agora, somente a morte do taxista foi solucionada.

Estava esperando o ônibus quando ele chegou e me ameaçou furar toda com uma faca se eu não entregasse meu iPhone. Foi um presente de Natal. Ele tentava desbloquear o aparelho, mas só funcionava com minha digital. Então, ele ameaçou arrancar meu dedo. Perdi meus contatos. De noite, eu tremo dormindo — relata a adolescente Camila Américo Monteiro, 15 anos.

Os assaltos abalam patrimônios e subtraem a tranquilidade de vítimas.

Estou traumatizada. Fico tempo lembrando, uma hora terei de pedir demissão, não conseguirei mais trabalhar. Fui transferida de posto e turno, agora trabalho à tarde — lamenta a funcionária de um posto Alessandra Silva, 35 anos, que presenciou a morte do taxista João da Silva Rdrigues, 61 anos, na Avenida Princesa Isabel, bairro Santana.

Se você costuma frequentar os bairros do Centro, Partenon, Rubem Berta, Floresta, Menino Deus, Passo D’Areia e Sarandi, o alerta deve ser redobrado: foram estas as regiões preferidas dos bandidos na amostragem obtida por ZH.

Para o professor de Ciências Sociais e pesquisador de violência urbana da Unisinos Carlos Gadea, a polícia tem dificuldades em coibir roubos por eles não serem arquitetados por organizações criminosas:

A polícia tem de fazer uma análise dos locais privilegiados para roubos e investir sua inteligência neles. Câmeras de vigilância e policiamento ostensivo são soluções típicas, nas quais não se utiliza a repressão como premissa.

Além de pedestres e veículos, os criminosos roubaram, no dia 3 de janeiro, seis estabelecimentos comerciais, dois motoristas de táxi — um deles foi assassinado —, dois motoristas de caminhão e um ônibus.

A Brigada não revela o efetivo empregado nas ruas, mas garante que faz o possível para amenizar a insegurança.

Estamos trabalhando com as comunidades, indo aos locais transmitir orientações. As pessoas também têm de participar e ajudar a Brigada — pede o comandante de Policiamento da Capital, coronel João Diniz Godoy.

CONTRAPONTOS

Joel Wagner, titular da Delegacia de Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic):
No final e no começo de ano, há um número maior de ocorrências contra o patrimônio. Muitas pessoas, em vez de trabalhar, acabam roubando, e há casos de sobrevivência também. Além disso, a dependência química, a desestruturação familiar e o entra-e-sai dos presídios impulsionam os roubos. Claro que o roubo a pedestre é grave, mas não tanto comparado a outros, como o latrocínio ao taxista no bairro Santana (no qual morreu o motorista João da Silva Rodrigues, 61 anos). Tendo em vista a conjuntura da nossa sociedade, vejo a situação toda como aceitável. Não é alarmante.

Coronel João Diniz Godoy, comandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC):
Esses tipos de crimes são cometidos por aqueles que procuram a oportunidade. Eles vão nas pessoas desatentas, sozinhas em locais de pouca circulação ou em centros de compras. A polícia não tem como estar presente em todos esses locais, 24 horas por dia. Procuramos mapear os locais de criminalidade e concentrar os recursos neles. No caso do roubo de carro, eles montam estratégias e vão no objeto que querem. Todo crime é preocupante. Empregamos todos os nossos recursos. Eu disponibilizo o meu e-mail para atender quem precisa: cpc-comandante@bm.rs.gov.br

“O meu filho vocês não vão levar”

Uma dona de casa conseguiu manter a tranquilidade e entregar tudo ao ter o cano de um revólver colocado no pescoço, mas não pensou duas vezes em se impor aos assaltantes quando viu que seu filho de três anos seria levado com o carro em um roubo. Foi na garagem da própria casa, às 10h, no bairro Tristeza. Ela saía com o menino para ir ao supermercado e dava carona para a mãe e uma vizinha. A ação dos criminosos foi muito rápida e precisa. Quando ela percebeu, havia duas armas apontadas — uma em cada janela. De fora do carro, um homem ordenou que o motor fosse desligado.

Demorou um pouco para cair a ficha. Até achei que fosse uma brincadeira. Minha mãe ficou tão nervosa que tentou negociar com um dos assaltantes a bolsa dela. Quando vi que eles estavam dando ré para levar meu veículo, me desesperei porque meu filho ainda estava na cadeirinha, no banco de trás. Me joguei, abri a porta e disse: “O meu filho vocês não vão levar” — recorda a jovem.

Segundo ela, as portas traseiras não eram travadas e, por isso, foi possível salvar o garoto.

Eles (assaltantes) mandaram eu fechar a porta, e eu fiquei puxando meu filho, que já estava gritando. Consegui tirá-lo, e eles saíram. O pior de tudo isso é o emocional. Já havia sido roubada, mas nunca assim — conta.

Passado o ataque, a mulher agora lida com os traumas de quem enfrentou a criminalidade na companhia de uma criança:

Meu filho está com febre e abalado ainda. A pediatra disse que talvez ele precise de acompanhamento. Dá medo de abrir o portão. A gente sabe que ocorrem muitos assaltos aqui no bairro, dessa vez eu fui a sorteada.

“Ele me desejou bom trabalho”

Além de ser roubado dentro do próprio estabelecimento comercial, o dono de uma pizzaria na Avenida Coronel Lucas de Oliveira, bairro Petrópolis, ainda teve de engolir a seco o deboche do assaltante, que limpou o caixa e desejou, antes de ir embora:

Bom trabalho.

O mesmo criminoso voltou quatro dias depois para novo ataque, dessa vez sem sucesso. Nem mesmo as quatro câmeras de vigilância instaladas na pizzaria amedrontaram o bandido, que aparenta ter 25 anos e apresenta-se bem vestido.

Ele não apontou a arma, só mostrou, e pediu, calmamente, o dinheiro. É uma falta de vergonha acontecer novamente, quatro dias depois — indigna-se o empresário.

Cansado de esperar pela polícia, ele resolveu contratar seguranças:

Não há policiamento. Tenho de agir por conta própria. Esse dinheiro que estou investindo em segurança vai ficar com alguém: comigo, com o segurança ou com o bandido. Não vejo a polícia preventiva, sei de histórias de roubos e assaltos a vários estabelecimentos comerciais ao redor.

“Ouvi um estampido e larguei a bolsa”

Eram 16h quando a aposentada Tânia Izabel dos Santos, 61 anos, saiu de um supermercado na Zona Sul e resolveu passar em uma concessionária para negociar um veículo. Ela estava na companhia do marido e tinha R$ 4 mil na bolsa, sacados um pouco antes. O dinheiro seria usado para o novo automóvel. Tudo corria normalmente até que eles manobraram o carro nas dependências da revenda e foram atacados por dois homens dentro do estacionamento. O alvo era a dela. Tânia agarrou com força e não soltou até que se deu conta do perigo que estava correndo.

Um cara me jogou no chão, enquanto o outro ficou com a arma apontada para nós. Quando ouvi um estampido, afrouxei e larguei a bolsa. Pensei: “Meu marido foi atingido”. Eles realmente acertaram, na perna dele, e correram com o dinheiro — relata.

O roubo durou menos de cinco minutos, o suficiente para traumatizá-la. Tânia não consegue ir ao banco e teme novo ataque.

É traumatizante. Veja bem: foi em uma avenida movimentada, em plena luz do dia. Não há policiamento. Se eles estavam nos seguindo, o que teria ocorrido em frente à minha casa? Estamos à deriva.

ENTREVISTA
JOSÉ VICENTE DA SILVA FILHO, ex-secretário Nacional da Segurança Pública

Professor do Centro de Altos Estudos de Segurança da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, o coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho critica a falta de cooperação entre as polícias Civil e Militar. A seguir, trechos da conversa.

Zero Hora — O que deve ser feito para diminuir os roubos em capitais como Porto Alegre?
José Vicente da Silva Filho —
 O roubo está muito mais próximo da gente do que o homicídio e exige um trabalho policial de sintonia fina. As polícias Civil e Militar têm de trabalhar juntas e ser cobradas semanalmente. O que interessa é o policial na base, onde os fatos acontecem. Se não existir essa cooperação, as ruas não são controladas.

ZH — De que forma ocorre essa cooperação?
Silva Filho —
 Quando se tem alta incidência de roubos gerais, a responsabilidade é da PM. Se os crimes fazem parte de um pequeno sistema, como o roubo sistemático a joalherias, a Polícia Civil tem de investigar. Nessa lógica, é preciso um tráfego de informações e um chefe acima dos distritos policiais e batalhões de polícia. Esse chefe deve marcar reuniões semanais ou, no máximo, quinzenais, para cobrar ações de combate.

ZH — O senhor vê essa vontade nas polícias brasileiras?
Silva Filho —
 É a gestão do sistema. Em Nova York, assisti várias vezes as reuniões, e os policiais são cobrados objetivamente, têm metas a cumprir. A polícia existe para reduzir e conservar o baixo volume de crimes nas ruas. Se não o faz, é por incompetência.

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