‘Ressuscitei’, diz o homem que ficou mais tempo preso na história do RS

Publicado: 15 de agosto de 2014 em Uncategorized
Ex-assaltante de bancos completa um ano em liberdade nesta sexta-feira.
Camilo da Silva Melo cumpriu 39 anos nos regimes fechado e semiaberto.

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O significado da liberdade é abstrato para um homem que perdeu quase toda a vida atrás das grades e portas de ferro dos presídios gaúchos. Camilo da Silva Melo, 55 anos, completa um ano de liberdade condicional nesta sexta-feira (1). Foram cumpridos 39 anos, seis meses e cinco dias nos regimes fechado e semiaberto, fora os quatro anos em que ficou na extinta Febem. Esse número inclui os 1.510 dias remidos, ou seja, dias de pena com trabalho na prisão. A cada três dias de trabalho, um é remido da pena.

De acordo com o juiz da Vara de Execuções Criminais (VEC) de Porto Alegre.  Até agora, as 8.760 horas como um cidadão livre na capital gaúcha serviram para dar nova vida a Camilo, que aproveitou duas oportunidades de trabalho para se distanciar do sistema prisional.

A liberdade é um renascimento para mim. É como se tivesse saído de um túmulo. Ressuscitei para uma nova vida. Sempre vivi lá embaixo, no fundo do poço, e de repente saí. Consegui olhar para trás e ver o que eu era e o que sou hoje. Fico me perguntando como pude sobreviver a tanta coisa, reflete Melo.

Por trás do homem trabalhador, um histórico extenso e intenso no mundo do crime. Camelinho, como era chamado, integrou a Falange Gaúcha, quadrilha aos moldes do Comando Vermelho, do Rio, que atuou nas décadas de 1980 e 1990 no estado. Fez sombra aos principais nomes da organização criminosa, como Vico, Carioca, Alemão Frida e Dilonei Melara. Chegou a acumular mais de 108 anos em pena. Foi assaltante, roubou bancos e participou de uma das maiores rebeliões do Presídio Central da capital gaúcha em 1987, com mais de 30 reféns. Na Justiça, respondeu por duas mortes. A primeira de um agente penitenciário durante o motim. A segunda ocorreu após um ataque frustrado a uma agência bancária de Campo Bom há 14 anos. Na fuga, o tiroteio resultou na morte de um policial militar.

A liberdade é um renascimento para mim. É como se tivesse saído de um túmulo. Ressuscitei para uma nova vida”

Camilo da Silva Melo

Ao todo, passou por oito tipos de cadeias em todo o estado, começando na Ilha do Presídio no final da década de 1970, em meio a presos políticos, até a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Conseguiu fugir mais de quatro vezes do sistema carcerário gaúcho ao longo dos anos. Mas foi lá, quando era apenado na Pasc, que teve seu livramento condicional concedido com a ajuda de Sidinei Brzuska, que o encaixou no projeto Começar de Novo, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). “Nem sei o que seria de mim se não fosse esse homem”, resume Camilo ao falar de Brzuska, magistrado responsável pela fiscalização dos presídios da Região Metropolitana.

Hoje consigo ver a alegria da minha família em me ter aqui fora. A gente pode se abraçar, se beijar. Nem lembro quantas vezes eles foram me visitar na cadeia. Nunca me deixaram na mão. Nunca. Sempre lutaram por mim, conta, emocionado.

Camilo tem uma filha e uma neta. Mas coloca na conta outros três filhos e mais sete netos.

Todos de criação, de coração”, explica. É casado com Tânia Duarte há 16 anos. Os dois se conheceram na cadeia, mas preferem não expor como se deu o início da relação. Desde então nunca mais se separaram. Pai e mãe são falecidos. O sonho da minha mãe era me ver longe do crime, diz.

Coisas simples trouxeram alegria a Camilo nos 365 dias de liberdade condicional.

Acordo cedo, vou trabalhar, posso passear quando quiser. Penso todos os dias que vou poder voltar para minha casinha, dormir na minha cama. Posso sair de casa tranquilo, atravessar a rua, olhar e conviver com as pessoas, subir e descer do ônibus, andar de Transurb”, enumera. “Fomos até ao zoológico uma vez. Andamos de Catamarã, fomos ao Parque Harmonia, passamos na Feira do Livro. Fiz bastante coisa, relata Camilo.

O homem que antes assaltava bancos agora quer vida nova.

Quando falo a verdade, que estive tanto tempo preso, as pessoas mudam. É um preconceito muito forte. A sociedade não aceita, não acredita que alguém possa mudar, não crê que pode se recuperar. Eu queria mostrar para todo mundo o contrário, que há uma saída“, ressalta.

De acordo com o juiz da Vara de Execuções Criminais (VEC) de Porto Alegre, Sidinei Brzuska, ele é a pessoa que passou mais tempo presa na história do Rio Grande do Sul. Até agora, as 8.760 horas como um cidadão livre na capital gaúcha serviram para dar nova vida a Camilo, que aproveitou duas oportunidades de trabalho para se distanciar do sistema prisional.

A liberdade é um renascimento para mim. É como se tivesse saído de um túmulo. Ressuscitei para uma nova vida. Sempre vivi lá embaixo, no fundo do poço, e de repente saí. Consegui olhar para trás e ver o que eu era e o que sou hoje. Fico me perguntando como pude sobreviver a tanta coisa, reflete Melo.

Por trás do homem trabalhador, um histórico extenso e intenso no mundo do crime. Camelinho, como era chamado, integrou a Falange Gaúcha, quadrilha aos moldes do Comando Vermelho, do Rio, que atuou nas décadas de 1980 e 1990 no estado. Fez sombra aos principais nomes da organização criminosa, como Vico, Carioca, Alemão Frida e Dilonei Melara. Chegou a acumular mais de 108 anos em pena. Foi assaltante, roubou bancos e participou de uma das maiores rebeliões do Presídio Central da capital gaúcha em 1987, com mais de 30 reféns. Na Justiça, respondeu por duas mortes. A primeira de um agente penitenciário durante o motim. A segunda ocorreu após um ataque frustrado a uma agência bancária de Campo Bom há 14 anos. Na fuga, o tiroteio resultou na morte de um policial militar.

A liberdade é um renascimento para mim. É como se tivesse saído de um túmulo. Ressuscitei para uma nova vida.

‘Funcionário exemplar’, diz analista de RH
A primeira tentativa de emprego depois de sair do semiaberto, em agosto de 2013, não deu certo. O contrato já estava quase fechado quando a empresa em questão recuou ao saber da verdade. Camilo procurou novamente o juiz Sidinei Brzuska e pediu ajuda, pois precisava de um trabalho. Convites para voltar ao mundo do crime não faltavam. Pouco depois, assinou carteira com a Engefort e ajudou a construir o novo prédio do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, justamente o órgão que o condenou a viver quase quatro décadas dentro de presídios.

Atualmente, Camilo é auxiliar de produção na Preconcretos, fábrica de pré-moldados.

Ele não falta, nunca se atrasa. É um funcionário exemplar”, diz a analisa de Recursos Humanos Cláudia Kleestadt. “Ele terá as mesmas oportunidades de um funcionário ‘normal’. Estamos projetando uma promoção para ele, revela.

A Preconcretos contrata egressos do sistema prisional desde 2012. No total, 30 pessoas nestas condições já passaram pelas mãos de Cláudia Kleestadt. Destas, 10 seguem trabalhando, seis foram demitidas e 11 pediram demissão. Três abandonaram as funções. “É uma mão de obra qualificada pela tamanha vontade que eles têm de aprender. A gente sabe que hoje em dia poucas empresas têm a mesma posição que nós. Mas é preciso abrir a cabeça para isso. Temos um papel muito importante na ressocialização destas pessoas”, observa Cláudia.

Liberdade condicional cassada
Desde a última segunda-feira (28), Camilo vive um pesadelo. Suas horas em liberdade estão contadas. Uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) diz que ele não cumpriu a totalidade do prazo necessário para ganhar o livramento condicional. De acordo com a defensora pública Lucinara Oltramari, que atende Camilo no processo, o TJ recalculou penas em que ele foi reincidente na década de 1970 e entendeu que deve seguir no semiaberto até setembro de 2021. O processou transitou em julgado e aguarda despacho para cumprimento.

Paguei minha dívida com a sociedade. Agora quero minha vida de volta.

No tempo em que esteve no semiaberto, Camilo ficou na Fundação Patronato Lima Drumond, no Bairro Teresópolis, Zona Sul de Porto Alegre. Poucos dias antes de ganhar a condicional, ele diz que escapou da morte.

Cinco homens armados invadiram para buscar alguém lá dentro. Foram procurando em cada alojamento. Eu estava na minha cama olhando televisão quando abriram a cortina de lençol e colocaram duas pistolas no meu rosto. Mas felizmente não era comigo. Aí eles saíram e logo depois a gente ouviu muitos tiros. Pegaram o cara. Deram dez tiros no rosto dele. Poderia ter morrido por engano, recorda.

Ter de voltar para o semiaberto, tudo de novo… Para mim é como se estivesse pagando por alguma coisa que eu fiz nesse tempo aqui fora. Mas não. Eles (o TJ) estão falando de coisas antigas. Eu não merecia isso. Já paguei minha dívida com a sociedade. Agora quero minha vida de volta, desabafa Camilo.

A tristeza no meu coração é grande, né? Querem me botar de volta para uma vida que não quero mais, completa.

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