Presídio Central flagrante do descontrole, com festa com cocaína

Publicado: 31 de dezembro de 2014 em Uncategorized
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Detentos fizeram fila para consumir a droga durante confraternização de Natal. Feito com um celular, vídeo volta a escancarar vulnerabilidade da segurança penitenciária no Rio Grande do Sul

Ver:

http://www.clicrbs.com.br/pdf/17136713.pdf

É noite de Natal no Presídio Central. Na primeira galeria do pavilhão B, onde 400 homens estão confinados, pelo menos 20 formam fila em um corredor. Relaxados, eles aguardam a vez para cheirar carreiras de cocaína financiadas pela facção Os Abertos – uma das organizações mais violentas do sistema prisional gaúcho. A farra foi documentada em um vídeo de 1min30s, que veio à tona ontem.

Antes de consumirem o pó, os presos teriam participado de um churrasco para celebrar o Natal. No vídeo, obtido pelo jornal Diário Gaúcho, os detentos aparecem sorridentes e brincalhões. Enquanto um usa uma carta de baralho para separar carreiras de cocaína sobre uma mesa branca, os demais formam uma fila.

A festança na cadeia teria reunido apenas “os embolados” – como são chamados criminosos diretamente ligados ao líder da galeria. Quem não tinha relação com o comandante teria ficado de fora. A confraternização teria sido um presente de Natal aos “embolados”. Teriam sido gastos, apenas com cocaína, cerca de R$ 20 mil.

As imagens surpreenderam até quem está habituado às prisões gaúchas, como o juiz da Vara de Execuções Criminais (VEC) da Capital Sidinei Brzuska. à frente da VEC desde 2008, Brzuska disse que nunca havia visto alguém ter “coragem” de vazar imagens como essa e criticou as dificuldades do Estado em evitar a proliferação e o consumo de drogas na cadeia (veja entrevista na página ao lado).

Hoje, os maiores pavilhões do Presídio Central têm três galerias cada, correspondentes aos andares. As galerias contam, em média, com 18 celas que, por não terem portas, permitem a livre circulação dos presos pelos corredores. Os contatos com a administração do presídio – a cargo da Brigada Militar – são feitos pelos chamados prefeitos (representantes escolhidos pela massa carcerária), que, não obrigatoriamente, são os líderes das facções criminosas.

PRESO SE SOBREPÕE AO PODER DO ESTADO

Desde a década de 1980 há um descontrole por parte do Estado no interior das galerias da maior casa prisional do Rio Grande do Sul. Com isso, são os próprios presos que exercem o poder nestes locais, estabelecendo a forma de relação entre eles. Na maioria dos casos, o domínio é exercido por facções organizadas.

Essa realidade influencia o próprio cumprimento da pena, com a anuência estatal. Quando um preso chega ao Central, é perguntado a ele se pertence a alguma facção. Caso a resposta seja positiva, é conduzido à galeria correspondente. O objetivo, nesse caso, é evitar que detentos sejam mortos por grupos rivais.

Não há registros recentes de que assassinatos tenham ocorrido no interior do Presídio Central. Porém, a paz aparente não impede outros crimes, como o de extorsão. As galerias, na maioria dos pavilhões, ficam no primeiro, segundo e terceiro andares, distantes da vista das inspetorias, que ficam no térreo.

Não é de hoje que o caos no Central tem repercussão, até internacional. Em 2008, CPI da Câmara dos Deputados que apurou problemas do sistema carcerário o apontou como “o pior presídio do país”. No ano passado, as condições sofríveis da penitenciária foram denunciadas à Comissão Interamericana de Direitos Humano, ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA). O caso ainda está sob análise.

CRISTIANE BAZILIO | RENATO DORNELES / ZH

Direção identifica preso que fez vídeo e pedirá transferência hoje

Mesmo em férias, o diretor do Presídio Central, major Dagoberto Albuquerque, afirmou ontem, por telefone, ter tido acesso ao vídeo e argumentou que os PMs apreendem quantidades expressivas de droga toda semana:

Grande parte vem das visitas, que escondem o material dentro de suas cavidades corporais, o que dificulta, tendo em vista que o Judiciário proibiu a revista íntima.

Responsável pela atuação da Brigada Militar na segurança da cadeia, o diretor também disse que são frequentes os arremessos de droga por cima dos muros.

O major reconhece, porém, que a entrada de droga na cadeia também pode ter sido facilitada, em alguns casos, por corrupção policial:

É um fato que não se pode negar, mas que tem sido fortemente combatido com medidas como impedir que, no intervalo entre a entrada e a saída do serviço, os PMs tenham acesso aos armários dos alojamentos, que são periodicamente revistados.

SCANNER PODERÁ COIBIR NOVOS CASOS

Segundo o diretor, a entrada de contrabando no Central deve ser amenizada com a instalação de um scanner corporal, semelhante ao usado na Penitenciária de Charqueadas. O equipamento já teria sido comprado, informou o diretor, e a previsão é de que esteja funcionando até o fim de janeiro.

Respondendo pela direção do Central na ausência de Albuquerque, o major Guatemi de Souza Echart disse que o preso que fez o vídeo já foi identificado e o celular, apreendido. Segundo o major, o detento admitiu ter gravado as imagens, mas alegou não tê-las difundido. A direção pedirá hoje à Justiça a transferência dele para outra penitenciária.

Guatemi ressalta que não há surpresa com a divulgação do vídeo, uma vez que a apreensão de droga é rotineira. Mas frisa que são feitas várias revistas gerais para coibir o consumo nas galerias.

A nossa maior incidência de entrada de drogas é por visitantes – observa o major.

Procurada por ZH, a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado afirmou que questões disciplinares no presídio são de competência da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) e, por isso, não iria se manifestar. A assessoria da Susepe informou que o superintendente, Gelson Treiesleben, também não se pronunciaria a respeito do assunto.

CARLOS ISMAEL MOREIRA /ZH

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