A trajetória do agente duplo da Segurança

Publicado: 7 de fevereiro de 2015 em Uncategorized
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Durante o espediente, Nilson Aneli ocupava uma sala ao lado do gabinete do secretário da Segurança, pronto para atender a seu superior oficial. Nas sombras, o comissário servia a outro chefe, este do submundo das drogas
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O homem que apunhalou um amigo, o ex-secretário Airton Michels, ao proteger, em paralelo, a maior autoridade da segurança pública do Estado e um temido traficante, aprendeu a desferir golpes na adolescência. Aos 12 anos, Nilson Aneli era faixa laranja em judô, em Canoas, onde nasceu em 1957. Colocou a faixa preta ao receber distintivo de policial civil aos 25 anos, com nota 84,2 no curso de inspetor.

Apaixonado por artes marciais – conquistou títulos estaduais e nacionais, inclusive como atleta e treinador de luta olímpica –, tornou-se um conceituado instrutor na Academia da Polícia Civil (Acadepol), ensinando técnicas de defesa pessoal. Ao mesmo tempo, aperfeiçoava-se com cursos de segurança de dignitários, de combate a extorsão e sequestro, de armeiro e artefatos explosivos. Cursou Direito na PUCRS e foi professor universitário no Interior. Nos anos 90, foi transferido para o Grupamento de Operações Especiais (GOE) – responsável pela segurança de autoridades e pela carceragem no Palácio da Polícia. Promovido a comissário, foi supervisor do setor.

Ele fazia parte da elite do GOE. Um exemplo de funcionário. Nunca soube de algo que prejudicasse a imagem dele – lembra o delegado aposentado José Raldi Sobrinho, chefe de polícia entre 1995 e 1997.

Por intermédio de conhecidos, o comissário se tornaria amigo de Michels, então promotor em Sapucaia do Sul e morador de Canoas, assim como Aneli. A simpatia pelo governo durante a primeira passagem do PT pelo Palácio Piratini, alçaram Aneli a figura ilustre no Fórum Social Mundial de 2002. Palestrou sobre técnicas de segurança pública e sobre abordagem policial a profissionais do sexo.

Entre amigos, vivia lamentando a falta de dinheiro. O crédito educativo que obteve para estudar na PUCRS nunca conseguiu quitar. A dívida soma hoje R$ 73,7 mil. Dois casamentos, pai de sete filhos, para garantir o sustento da família passou a fazer bico cuidando do patrimônio e de parentes do jogador Ronaldinho Gaúcho. Um dos filhos de Aneli seguia o mesmo caminho, mas foi morto aos 21 anos, atropelado sobre uma calçada por um táxi desgovernado.

Em 2011, o PT retornou ao comando do Estado com Tarso Genro. Michels assumiu a Secretaria da Segurança Pública (SSP), reencontrou Aneli e o levou para ser chefe da segurança pessoal. O salário do comissário iria melhorar, chegaria a R$ 10 mil brutos – reduzido pela metade por causa de descontos e de pensões – e ele deveria abandonar o bico.

Na SSP, o comissário ocupava uma pequena sala, ao lado do gabinete de Michels, e comandava quatro policiais – dois seguranças e dois motoristas – que se revezavam na escolta do secretário. Por vezes, o comissário acompanhava Michels em viagens. Em 2011, Aneli se condoeu com a história de um PM que perdeu a casa em um incêndio. Organizou uma vaquinha que rendeu R$ 5 mil.

Homem de confiança, Aneli também recebia resumo de ocorrências geradas pelo 190 e repassava ao secretário. Tornou-se um elo entre a SSP e organismos policiais. Era comum querer saber o andamento de investigações e também passar dicas a colegas.

Dizia ter muitos informantes. Em outubro de 2012, um deles, um ex-PM e ex-policial civil, expulso da corporação, foi preso em Tapes pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) sob suspeita de roubar R$ 430 mil de um empresário na Capital. Aneli foi ao Deic para saber a situação do X-9. O homem acabou absolvido, mas outro processo tramita em Tapes por porte ilegal de arma. O comissário é testemunha de defesa do ex-policial.

Em julho de 2013, se encontrou com o mesmo ex-policial em Tapes quando foram abordados por PMs. O ex-policial fugiu. Aneli dirigia uma viatura discreta da SSP, se apresentou como assessor de Michels e garantiu que o ex-policial era seu informante.

Ainda é obscuro o momento em que o comissário passou a ser segurança de Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, 35 anos, traficante assassinado por rivais em 4 de janeiro, em Tramandaí. Relato à polícia de um dos amigos de Xandi, preso após a morte do traficante, aponta que desde setembro de 2013 Aneli prestaria serviços à produtora de eventos musicais Nível A – empresa da qual o traficante morto era sócio.

Para a Corregedoria-geral da Polícia (Cogepol), há evidências de que Aneli teria ligações com o traficante desde o começo de 2014. Naquela época, o comissário cobrou explicações da BM referentes a uma ação no escritório da produtora, na Capital, quando um homem foi preso. No segundo semestre do ano passado, o comissário teria procurado o Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc) para reclamar de que parceiros de Xandi estavam sendo “incomodados” por agentes daquele órgão. Na prática, todos eram alvo de um inquérito.

Pela posição que ocupava, Aneli era muito valioso para o Xandi – comentou um delegado.

Em um dos depoimentos à Cogepol, o comissário admitiu que atuou como segurança da Nível A nos últimos quatro meses, a convite do sobrinho Marcelo Mendes Ventimiglia, 31 anos, também guarda­costas da produtora. A função do comissário seria de proteger funqueiros contratados para shows.

Investigações reconstituíram o cenário que descortinou a vida dupla de Aneli na virada de ano. Ele teria chegado à casa alugada por Xandi em Tramandaí em 29 de dezembro. Dirigia um Onix branco, pertencente a um comparsa de Xandi. O comissário não tem carro. Teve uma motocicleta Suzuki 750 cilindradas, ano 1997. A moto, com licenciamento vencido, está registrada no nome dele, mas já teria sido vendida.

Aneli teria entregue a um dos homens de Xandi uma bolsa preta com quatro pistolas – uma Taurus calibre .380 com a numeração raspada, e três Glock 9mm. As Glock fariam parte de um lote contrabandeado do Uruguai. O comissário teria recomendado cuidado, pois havia crianças na casa.

Os relatos indicam que o policial era a pessoa mais próxima de Xandi. Seria o único a sair sozinho com o traficante e nunca falavam onde iam. O comissário portaria duas pistolas. Xandi andava desarmado. O traficante costumava passar o dia com os amigos, mas pernoitava com a família em Capão da Canoa.

O comissário dormiria na casa em Tramandaí e ficaria com o controle remoto da garagem. Deixava o Onix sempre perto do portão, pronto para sair a qualquer momento. A casa tinha sido alugada por sete dias ao custo de R$ 10 mil. Pelo menos 14 pessoas curtiam churrascos e funk à beira da piscina. Festas eram diuturnas. Era tanta gente que homens dormiam dentro de veículos com o ar-condicionado ligado. Caso algum PM aparecesse, Aneli o receberia, mostrando sua identidade policial. O comissário ficava atento ao movimento de veículos. Anotava placas de alguns e ligava para uma pessoa. Depois dizia: “Tudo tranquilo”. A postura indica que ele não acessaria diretamente o banco de dados da SSP.

Aneli não teve tempo de impedir a execução de Xandi, fulminado com um tiro de fuzil na cabeça. Mas tentou barrar a entrada de um PM na casa. Saiu às pressas com o Onix e em seguida voltou a pé. Apresentou-se na DP de Tramandaí, contou uma história pouco crível e informou um antigo endereço. Ao fazerem buscas na moradia, policiais bateram “com o nariz na porta”. Interrogado novamente, disse que mentiu por medo. Em uma inspeção na verdadeira moradia, nada de irregular foi encontrado. Depois de duas versões contraditórias, teve a prisão preventiva decretada pela Justiça a pedido da Cogepol.

O episódio sacudiu a Polícia Civil e chocou amigos. Até Ronaldinho Gaúcho, que joga no México, teria ligado para conhecidos, querendo saber do ocorrido.

Desde 26 de janeiro, Aneli ocupa uma cela individual na carceragem do GOE.

Ele está bem, tranquilo. Confiante que tudo será esclarecido – disse um colega que o visitou.

JOSÉ LUÍS COSTA / ZH

comentários
  1. Camundongo disse:

    Bandido igual a muitos que existem por aí.

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