Assassinato na prisão e foguetório nas ruas

Publicado: 8 de maio de 2015 em Uncategorized
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Homicídio dentro da PASC é o mais recente capítulo de uma guerra travada por traficantes em Porto Alegre, com direito a comemoração da morte de bandido por rivais. Episódio marca série de crimes violentos por toda a Capital

Acostumada a soltar fogos para embalar a rivalidade entre Grêmio e Inter, Porto Alegre assistiu ontem a uma vibração inusitada e mórbida: os foguetes estourados por volta das 14h em um condomínio situado quase no coração da Capital festejavam uma morte, e o desfecho de mais um capítulo na guerra do tráfico de drogas.
A euforia traduzida pelo espocar de fogos nas cercanias de prédios de apartamentos na Avenida Princesa Isabel foi pelo assassinato do traficante Cristiano Souza da Fonseca, o Teréu, asfixiado dentro da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), distante cerca de 60 quilômetros do conjunto habitacional.
A algazarra embalada por fogos e por música alta, observada por policiais militares, marcou a tarde em uma Capital agitada pela violência que, nos últimos 23 dias, lançou no cenário urbano perseguições e execuções a tiros em avenidas das mais movimentadas. O caso mais recente ocorreu na quarta-feira, quando um casal foi fuzilado na Bento Gonçalves, em meio ao rush das 17h. Houve ainda execuções na Paulino Azurenha, na Avenida Sertório e, dentro de um ônibus, na Avenida Farrapos. Pelo menos duas crianças – uma delas em Canoas – foram vítimas da guerra do tráfico, atingidas por balas perdidas.
Enquanto autoridades se reuniam na Pasc para tentar decifrar como um detento foi surpreendido e morto dentro da prisão tida como de segurança máxima, a festa seguia no Princesa Isabel, com pelo menos mais cinco baterias de fogos até o final da noite.
A comemoração pela morte de Teréu ocorreu porque ele era o principal suspeito de ter ordenado a execução de Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, ocorrida a uma quadra da beira-mar, em Tramandaí, no Litoral Norte, em 4 de janeiro. Suspeito de comandar o tráfico de drogas em pontos da Capital, Xandi era idolatrado no Princesa Isabel, onde se criou e tinha familiares. Depois do crime, um grafite gigante com o rosto dele chegou a ser estampado na parede de um dos prédios.
Ataques à luz do dia viram rotina
A descontração no conjunto habitacional, que ora homenageia um traficante, ora comemora ostensivamente a morte de outro, é mais um exemplo de como o crime expandiu seus domínios diante da inércia do poder público. Antes restritas às áreas periféricas da cidade ou concretizadas nas madrugadas silenciosas, as execuções viraram rotina à luz do dia no cenário de Porto Alegre.
Em nenhum dos casos recentes houve flagrante, ou seja, não havia policiamento ostensivo da Brigada Militar nos locais onde ocorreram homicídios, apesar de registrados em regiões de alto fluxo de veículos e de pessoas. Além de esclarecer as circunstâncias da morte de Teréu, que estava sob custódia do Estado, e dos outros casos recentes que assolaram a Capital, a segurança pública tem pela frente o desafio de estancar novos capítulos da disputa entre os grupos dos dois traficantes mortos. Ontem à noite, já chegavam à polícia informações sobre possível revide do grupo de Teréu.
A Secretaria de Segurança Pública se manifestou por meio de nota, informando que foi instaurado inquérito para investigar o homicídio de Teréu, e a Corregedoria Geral dos Serviços Penitenciários instaurou sindicância para apurar os fatos na esfera administrativa. “Imediatamente após o relato do falecimento, a segurança na região do Beco dos Cafunchos, no bairro Agronomia, foi reforçada. O Comando do Policiamento da Capital está monitorando e reforçando os efetivos em outras áreas consideradas de risco”, dizia a nota.

ADRIANA IRION / ZH

Escalada da criminalidade
16 DE ABRIL
Em provável acerto de contas, Gerson Fagundes, 38 anos, foi executado com mais de 20 tiros dentro de ônibus da linha Passo das Pedras, em plena tarde, no cruzamento da Avenida Farrapos com a Rua Ramiro Barcelos, no Centro. Ele era foragido e estava armado.
17 DE ABRIL
Um tiro de fuzil matou Laura Machado Machado, sete anos, enquanto ela dormia em casa no loteamento Campos do Cristal, bairro Vila Nova. A bala, entre as mais de cem disparadas, partiu de quadrilheiros em guerra.
27 DE ABRIL
Rodimar Goulart, 45 anos, e Ricardo Rosário da Rosa, 34 anos, o Sarará, foram executados por volta do meio- dia na Avenida Sertório, bairro Sarandi, na Capital. Eles estavam em um caminhão-guincho que foi alvo de mais de 60 tiros. O alvo seria Sarará, que estava em prisão domiciliar.
28 DE ABRIL
Emanuel Vinícius Gonçalves Rocha, 12 anos, foi morto a tiros na Avenida Doutor João Dentice, bairro Restinga, na Capital. Ele tinha antecedentes por roubo a pedestre e tráfico, e teria sido aliciado para vender drogas na região.
29 DE ABRIL
O advogado Marco Antônio Mariano, 57 anos, foi morto a tiros dentro de um café, na Avenida João Corrêa, no Centro de São Leopoldo, por volta das 11h.
1º DE MAIO
Richard Kaun de Souza, oito anos, morreu com um tiro na cabeça, às 23h20min, em Canoas, enquanto criminosos executavam seu tio Babiton Gabriel da Silva de Lopes, 19 anos. O motivo seria dívidas do tráfico. Lopes estava em cima de uma cama, sob a qual Richard havia se escondido.
2 DE MAIO
Um homem foi morto a tiros por volta das 15h na Rua Paulino Azurenha, bairro Partenon, zona leste de Porto Alegre. Eduardo Graf Jardim, o Alemão, 41 anos, estava em um carro que foi emboscado por atiradores. No local do crime, um fuzil calibre .223, de fabricação canadense, foi apreendido pela polícia.
4 DE MAIO
Ana Paula Leal, 20 anos, grávida de seis meses, foi morta com um tiro na cabeça quando criminosos dispararam mais de 15 vezes contra o carro em que ela estava com outras cinco pessoas, na Avenida Itacolomi, em Gravataí. O alvo seria o cunhado dela que, também baleado, foi socorrido.
6 DE MAIO
Um casal foi perseguido e executado a tiros dentro de um carro, no final da tarde, na Avenida Bento Gonçalves, bairro Partenon, na Capital. As vítimas, Kellen Monteiro Dornelles, 32 anos, e Luis Antônio da Rosa, 35 anos, estavam com prisão preventiva decretada por uma tentativa de homicídio em janeiro deste ano.
Asfixiado no refeitório da cadeia

A Polícia Civil confirmou no começo da noite de ontem que Paulo Márcio Duarte da Silva, o Maradona, é um dos envolvidos na morte de Cristiano Souza da Fonseca, o Teréu, ocorrida pela manhã na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).
Conforme o delegado de Charqueadas, Rodrigo Reis, Maradona e Teréu compartilhavam a mesma galeria, identificada como pertencente à facção dos Abertos.
Até 2011, quando foi transferido para o Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, Maradona era considerado pela polícia um dos principais criminosos do Estado. Chefiava a facção Os Manos. Maradona retornou à Pasc em 2013. Agora, estaria aliado aos Abertos.

Teréu foi morto em um dos refeitórios da prisão. Imagens das câmeras de segurança flagraram o crime. O delegado revelou que a ação dos detentos para matar Teréu por asfixia teria durado entre cinco e 10 minutos. Ele foi atacado pelas costas, estrangulado e jogado no chão. Ao ver a confusão, outros presos que almoçavam saíram correndo do local. Os detentos envolvidos na ação buscaram duas sacolas, usadas para asfixiar o traficante. Os suspeitos foram identificados e isolados logo após o homicídio.

Disputa entre facções atrás das grades

Informações não confirmadas pela polícia dão conta de que, no mundo do tráfico, a morte de Teréu já estaria prometida por uma recompensa de até R$ 300 mil.
O delegado adiantou que entre cinco e sete presos deverão ser indiciados pelo crime. Ontem, foram ouvidos oito apenados, um na condição de testemunha:

A maioria permaneceu em silêncio. Outros tentaram negar participação, mas foram denunciados pelas imagens das câmeras – afirmou Reis.

Informalmente, presos disseram que não há relação entre o assassinato e as desavenças do grupo de Teréu com o grupo de Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, morto em janeiro deste ano, em Tramandaí. Alegaram que a razão do crime seria o fato de Teréu ser suspeito de crimes rechaçados até mesmo por bandidos de alta periculosidade. Citaram, como exemplo, a morte de um taxista.
Um dos próximos passos da investigação é verificar como agentes da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) fazem a vigilância dos presos. No momento do ataque, no refeitório, não havia agentes no local.
Tão logo a morte do traficante foi noticiada, houve um prolongado foguetório no Condomínio Residencial Princesa Isabel, conhecido como Carandiru.
Teréu foi preso dia 13 de abril com um carregador de pistola na saída de uma boate na zona leste de Porto Alegre. Encaminhado para o Presídio Central, lá ele já teria sofrido as primeiras ameaças. Teve prisão preventiva decretada no dia seguinte e foi transferido para a Pasc.
A chegada de Teréu à cadeia teria polarizado ainda mais a disputa entre facções. De um lado, Os Manos, que tinham em Xandi o seu principal aliado em Porto Alegre e Região Metropolitana, do outro, a Vila Maria da Conceição, que teria amparado os aliados de Teréu em suas galerias.

EDUARDO TORRES RENATO DORNELLES | ZH

Alta segurança ficou só no nome

O assassinato de Teréu, em plena luz do dia e sob custódia do Estado, expõe mais uma vez as chagas da prisão que deveria ser modelo de segurança no Estado – a Penitenciária de Alta Segurança de Chaqueadas (Pasc).
Em janeiro, o juiz Sidinei Brzuska emitiu despacho determinando que em ofícios internos da Vara de Execuções Criminais (VEC) a Pasc passasse a ser definida como de “média” segurança. A decisão teve por base 18 irregularidades detectadas na prisão, que deveria ser modelo. Conforme a Justiça, a Pasc tem falhas iguais as de cadeias comuns, assim como as mesmas facilidades para presos consumirem drogas, usarem telefones e, principalmente, ordenar crimes nas ruas.
Hoje, uma guerra que tem sido travada por traficantes nas ruas de Porto Alegre teve desfecho em um dos refeitórios da Pasc, com a morte de Teréu por asfixia. Câmeras de segurança registraram o crime.
Segundo Brzuska, o advogado de Teréu, Santo Virissimo Camacho, havia solicitado duas vezes a transferência do detento para outra penitenciária, mas ambos os pedidos foram negados. O juiz não soube informar as causas da negativa. Normalmente, detentos com muita visibilidade ou que estejam sob risco de vida ficam isolados, caso peçam. Teréu estava no isolamento desde a sua chegada à Pasc, mas, ainda conforme Brzuska, na terça-feira o próprio detento pediu para sair desta condição e voltar ao convívio com outros presos.

Ainda de acordo com Brzuska, este é o terceiro homicídio dentro do mesmo refeitório na Pasc. Um dos casos mais notórios foi o assassinato com 12 facadas de Francisco dos Reis Cavalheiro, o Chico Cavalheiro, em 2006. Cavalheiro participou do maior motim do sistema prisional gaúcho, o do Hospital Penitenciário, em 1994.

comentários
  1. Susepiano disse:

    ATESTADO DE INCOMPETÊNCIA DO CHEFE DE SEGURANÇA!

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